Homem com H é uma cinebiografia dirigida por Esmir Filho que retrata momentos marcantes da vida do cantor Ney Matogrosso. O filme começa intercalando memórias da infância do artista com cenas de seu primeiro show solo, evidenciando o conflito com o pai militar e sua busca por liberdade e expressão através da arte. A narrativa acompanha Ney ao longo de sua trajetória pessoal e artística, destacando como ele transforma suas vivências e referências em performances teatrais e impactantes. Canções como “Homem com H” do paraibano Antônio Barros e “Bandido Corazón” de Rita Lee, ambas interpretadas por Ney que pontuam a história, funcionando como marcos de sua afirmação identitária e artística.
Esse filme abre espaço para aquilo que o brasileiro mais sabe fazer: a arte. A complexidade da relação do cantor com o pai deu ao diretor a carta coringa para explorar o profundo dessa história, cheia de resiliência, coragem de enfrentar o mundo em uma época tão delicada para o Brasil. A vida de Ney nasce em um lar onde o pai é uma autoridade não apenas para ele, mas para a sociedade, e ele busca tal responsabilidade vinda do seu filho, mas como uma fala do filme diz “você conseguiu contrariar muito o seu pai”. Com determinação necessária para ele ser quem ele era e não o que os outros gostaria que ele fosse. Resultado disso? Uma voz avassaladora, única, tomando os palcos de todo o País, enfrentando tudo e todos.
Toda essa musicalidade só conseguiu ser contada pelo incrível desempenho do Jesuíta Barbosa (Ney Matogrosso na ficção). Ele se entregou de corpo e alma, uma escolha certeira, todos os trejeitos muito bem trabalhados ao lado do Ney original. Uma performance muito orgânica quando se vê a linha do tempo que o filme conta. Aliás, Barbosa, perdeu 12 quilos para esse papel, o que ressalta a minha fala, ele se entregou de corpo e alma.
Sensorialidade e sexualidade
O diretor Esmir Filho, trás uma linha cronológica autobiográfica muito sensorial, conseguimos sentir o que o personagem está passando, qual momento dele, experiências e sentimentos, desde quando era muito criança com sua trajetória do pai, passando por suas experiências em São Paulo, de querer viver ali, o agora. Até o episódio mais dramático dos anos 1980 e 1990, com a explosão da Aids. Ney perdeu amigos e namorados, um dos mais conhecidos foi o Cazuza, com quem namorou. “Homem com H” procurou abordar a relação deles, uma resposta ao filme “Cazuza - O Tempo Não Para” cuja não comentou sobre a relação amorosa entre eles.
Antes desse drama explodir, o autor narra com nenhuma timidez o sexo e a exposição artística, como o cantor se soltava no palco querendo viver a sua verdade, como cita o filme onde o Ney (Jesuíta Barbosa) conta para o Maro de Maria (Bruno Montaleone) que no palco ele deixa soltar tudo e toda expressão que não solta na vida. O que me faz pensar, como o mundo já foi menos moralista e conservador em relação a entregar o corpo como arte.
Secos & Molhados
O Ney que conhecemos hoje foi revelado em 1973, como vocalista da banda Secos & Molhados. Ney impressionou a dupla que o convidou para a banda (João Ricardo e Gérson Conrad), tanto que a banda achou que estava perdendo o controle da situação. Até que os Secos & Molhados sobreviveu até 1974, deixando uma marca na música brasileira. Recomendo ouvirem “Rosa de Hiroshima” vinda de um poema do Vinicius de Moraes e “Sangue Latino”. Foi dessa banda que Ney aprendeu a expressão que vemos nos palcos.
“Homem com H” foi uma série de escolhas boas, não só um retrato de Ney Matogrosso, mas como do Brasil, da nossa história que precisamos preservar e lembrá-la.
Recomendo ir aos cinemas para ver essa obra. ⭐ 5/5